Embora seja a Igreja de Deus toda ela ordenada em distintos
graus, de forma a subsistir a integridade nos diversos membros do Corpo
sagrado, todos, no entanto, no dizer do Apóstolo, em Cristo, somos um (cf. Gl
3,28). Ninguém está tão separado do outro pelo ofício, que até a mínima porção
não pertença à conexão da cabeça. De fato, na unidade da fé e do batismo, nossa
sociedade não conhece discriminações e é geral a dignidade, segundo a palavra
do santo apóstolo Pedro: Quais pedras vivas deixai-vos edificar como casas
espirituais, um sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais aceitos
de Deus por Jesus Cristo (1Pd 2,5); e depois: Vós, porém, raça eleita e
sacerdócio real, nação santa, povo adquirido (1Pd 2,9).
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Grande paz para os que amam a tua lei - São Leão Magno
Merecer tal coisa, penso eu, é o fito do que se segue:
Bem-aventurados os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus (Mt 5,9).
Esta bem-aventurança, caríssimos, não consiste em um acordo qualquer nem em
qualquer concórdia. É aquela de que fala o Apóstolo: Tende paz com Deus (Rm 5,1)
e o profeta: Grande paz para os que amam tua lei e para eles não há tropeço (Sl
118,165).
Mesmo os mais estreitos laços de amizade e uma igualdade sem
falha dos espíritos não podem, na verdade, reivindicar para si esta paz, se não
concordarem com a vontade de Deus. Estão fora da dignidade desta paz a
semelhança na cobiça dos maus, as alianças pecaminosas, os pactos para o vício.
O amor do mundo não combina com o amor de Deus, nem passa para a sociedade dos
filhos de Deus quem não se separa da vida carnal. Quem sempre com Deus tem em
mente guardar com solicitude a unidade do espírito no vínculo da paz (Ef 4,3),
jamais discorda da lei eterna, repetindo a oração da fé: Seja feita a tua
vontade assim na terra como no céu (Mt 6,10).
São estes os pacíficos, estes os unânimes no bem, santamente
concordes, que receberão o nome eterno de filhos de Deus, coerdeiros de Cristo
(cf. Rm 8,17). Porque o amor de Deus e o do próximo lhes obterão não mais sentir
adversidades, não mais temer escândalo algum. Mas terminado o combate de todas
as tentações, repousarão na tranquila paz de Deus, por nosso Senhor que com o
Pai e o Espírito Santo vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.
São
Leão Magno (400/461)
Papa e Doutor da
Igreja
Do Sermão sobre as
Bem-aventuranças
Fonte: Liturgia das horas
Foto retirada da internet
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A sabedoria cristã - São Leão Magno
Feliz espírito, faminto do pão da justiça e que arde por tal
bebida. Na verdade não teria disso nenhuma cobiça, se não lhe houvesse provado
a doçura. Ouvindo o espírito profético que lhe diz: Provai e vede como é suave
o Senhor (Sl 33,9), tomou uma porção da altíssima doçura e inflamou-se pelo
amor das castíssimas delícias. Abandonando todo o criado, acendeu-se-lhe o
desejo de comer e beber a justiça e experimentou a verdade do primeiro
mandamento: Amarás o Senhor Deus de todo o teu coração, com toda a tua mente,
com todas as tuas forças (Dt 6,5; cf. Mt 22,37). Porque não são coisas
diferentes amar a Deus e amar a justiça.
Por fim, como o interesse pelo próximo se une ao amor de
Deus, também aqui o desejo da justiça é acompanhado pela virtude da
misericórdia, e se diz: Bem-aventurados os misericordiosos porque deles terá
Deus misericórdia (Mt 5,7).
Reconhece, ó cristão, a dignidade de tua sabedoria e entende
de que modo engenhoso foste chamado ao prêmio. A misericórdia te quer
misericordioso, a justiça, justo, para que em sua criatura transpareça o
Criador e no espelho do coração do homem refulja a imagem de Deus expressa
pelas linhas da imitação. Firme é a fé dos que assim agem, teus desejos te
acompanham e daquilo que amas gozarás sem fim.
Já que pela esmola tudo se faz puro para ti, chegas à
bem-aventurança que é prometida como consequência. Diz o Senhor:
Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus (Mt 5,8). Imensa
felicidade, caríssimos, para quem se prepara tão grande prêmio. Que é, então,
ter o coração puro? Entregar-se às virtudes acima descritas. Que inteligência
poderá conceber e que língua proclamar quão grande seja a felicidade de ver a
Deus? E, no entanto, isto acontecerá quando a natureza humana for transformada,
de sorte que não mais em espelho ou enigma, mas face a face (1Cor 13,12), verá aquela
Divindade que homem algum pôde ver tal qual é. E obterá o que os olhos não
viram, nem os ouvidos ouviram, nem subiu ao coração do homem (1Cor 2,9), pelo
gáudio indizível da eterna contemplação.
São
Leão Magno (400/461)
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A bem-aventurança do reino de Cristo - São Leão Magno
Em seguida diz o
Senhor: Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra por herança (Mt
5,5). Os mansos e quietos, humildes, modestos e aflitos a suportar toda injúria
recebem a promessa de possuir a terra. Não se considere pequena ou sem valor
esta herança, como se fosse diferente da celeste morada, pois não se entende
que sejam outros a entrar no reino dos céus. A terra prometida aos mansos e a
ser dada aos quietos é a carne dos santos que, graças à humildade, será mudada
pela feliz ressurreição e vestida com a glória da imortalidade, nada mais tendo
de contrário ao espírito na harmonia de perfeita unidade. O homem exterior será
então a tranquila e incorruptível possessão do homem interior.
Os mansos a possuirão numa paz perpétua e nada diminuirá de
sua condição, quando o corruptível se revestir da incorruptibilidade e o mortal
se cobrir com a imortalidade (1Cor 15,54); a provação se mudará em prêmio, o
ônus de outrora agora será honra.
São
Leão Magno (400/461)
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Imprimirei a minha lei em seu íntimo - São Leão Magno
Nosso Senhor Jesus Cristo, caríssimos, ia pregando o
Evangelho do reino, curando as enfermidades por toda a Galiléia, e a fama de
seus prodígios se espalhava pela Síria inteira. Grandes multidões, vindas da
Judéia, afluíam ao médico celeste. Lenta é para a ignorância humana a fé em
crer no que não vê e esperar o que não conhece. Foram precisos, a fim de firmar
na doutrina divina, os benefícios corporais e o estímulo dos milagres patentes.
Pela experiência de seu tão benigno poder não duvidariam que sua doutrina traz
a salvação.
Para passar das curas exteriores aos remédios interiores e
depois da cura dos corpos à saúde das almas, o Senhor separou-se das turbas que
o cercavam, subiu à solidão do monte vizinho. Chamou os apóstolos para
formá-los com mais elevadas instruções do alto da cátedra mística. Pelo próprio
lugar e qualidade do ato, significava ser o mesmo que se dignara outrora falar
com Moisés. Lá na mais apavorante justiça, aqui com a mais divina clemência.
Eis que vêm dias, diz o Senhor, e firmarei com a casa de Israel e a casa de
Judá um pacto novo. Depois daqueles dias, palavras do Senhor, porei minhas leis
no seu íntimo e as escreverei em seus corações (cf. Jr 31,31.33; cf. Hb 8,8).
Aquele, pois, que falara a Moisés, falou aos apóstolos. E
nos corações dos discípulos, a mão veloz do Verbo escrevia os decretos da nova
Aliança. Sem nenhuma escuridão de nuvens envolventes, sem sons terríveis e
relâmpagos. Sem estar o povo afastado do monte pelo terror, mas na límpida
tranquilidade de uma conversa com os circunstantes atentos, a fim de remover a
aspereza da lei pela brandura da graça e tirar o medo de escravo pelo espírito
de adoção.
Qual seja a doutrina de Cristo, suas santas sentenças o
demonstram. Elas dão a conhecer os degraus da jubilosa ascensão àqueles que
desejam chegar à eterna beatitude. Bem-aventurados os pobres em espírito porque
deles é o reino dos céus (Mt 5,3). Seria talvez ambíguo a que pobres se referia
a Verdade, se dissesse: Bem-aventurados os pobres, sem acrescentar nada sobre a
espécie de pobres, parecendo bastar a simples indigência, que tantos padecem
por pesada e dura necessidade, para possuir o reino dos céus. Dizendo porém:
Bem-aventurados os pobres em espírito, mostra que o reino dos céus será dado
àqueles que mais se recomendam pela humildade dos corações do que pela falta de
riquezas.
São
Leão Magno (400/461)
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A ascensão do Senhor aumenta a nossa fé - São Leão Magno
Assim como na solenidade pascal a ressurreição do Senhor foi
para nós motivo de grande júbilo, agora também a sua ascensão aos céus nos
enche de imensa alegria. Pois recordamos e celebramos aquele dia em que a
humildade da nossa natureza foi exaltada, em Cristo, acima de toda a milícia
celeste, sobre todas as hierarquias dos anjos, para além da sublimidade de
todas as potestades, e associada ao trono de Deus Pai. Toda a vida cristã se
funda e se eleva sobre uma série admirável de ações divinas, pelas quais a
graça de Deus nos manifesta sabiamente todos os seus prodígios. De tal modo
isto acontece que, embora se trate de mistérios que escapam à capacidade humana
de compreensão e que inspiram um profundo temor reverencial, nem assim vacile a
fé, esmoreça a esperança ou esfrie a caridade.
Nisto consiste, efetivamente, o vigor das grandes almas e a
luz dos corações fiéis: crer, sem hesitação, naquilo que não se vê com os olhos
do corpo, e fixar o desejo onde a vista não pode chegar. Como poderia nascer
esta piedade, ou como poderíamos ser justificados pela fé, se a nossa salvação
consistisse apenas naquilo que nos é dado ver?
Os dias entre a ressurreição e a ascensão do Senhor - São Leão Magno
Caríssimos filhos, os dias entre a ressurreição e a ascensão
do Senhor não foram passados na ociosidade. Pelo contrário, neles se
confirmaram grandes sacramentos, grandes mistérios foram neles revelados.
No decurso destes dias foi afastado o medo da morte cruel e
proclamada a imortalidade não apenas da alma mas também do corpo. Nestes dias,
mediante o sopro do Senhor, todos os apóstolos receberam o Espírito Santo;
nestes dias foi confiado ao apóstolo Pedro, mais que a todos os outros, o
cuidado do rebanho do Senhor, depois de ter recebido as chaves do reino.
Cristo vivo em sua Igreja - São Leão Magno
Caríssimos filhos, a natureza humana foi assumida tão
intimamente pelo Filho de Deus, que o único e mesmo Cristo está não apenas
neste homem, primogênito de toda a criatura, mas também em todos os seus
santos. Disto não podemos duvidar.
E como a Cabeça não pode separar-se dos membros, também os
membros não podem separar-se da Cabeça. Se é certo que Deus será tudo em todos
não nesta vida mas na eterna, também é verdade que, desde agora, ele habita
inseparavelmente no seu templo, que é a Igreja, conforme sua promessa: Eis que
eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo (Mt 28,20).
A cruz de Cristo é fonte de todas as bênçãos e origem de todas as graças - São Leão Magno
Que a nossa inteligência, iluminada pelo Espírito da
Verdade, acolha com o coração puro e liberto, a glória da cruz que se irradia
pelo céu e a terra; e perscrute, com o olhar interior, o sentido destas
palavras do Senhor, ao falar da iminência de sua paixão:
Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado (Jo 12,23).
E em seguida: Agora sinto-me angustiado. E que direi? “Pai, livra-me desta
hora!”? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu
Filho! (Jo 12,27). E tendo vindo do céu a voz do Pai que dizia: Eu o
glorifiquei e o glorificarei de novo! (Jo 12,28), Jesus continuou, dirigindo-se
aos presentes: Esta voz que ouvistes não foi por causa de mim, mas por causa de
vós. É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe deste mundo vai ser
expulso, e eu, quando for elevado da terra, atrairei tudo a mim (Jo 12,30-32).
Contemplemos a paixão do Senhor - São Leão Magno
Quem
venera realmente a paixão do Senhor deve contemplar de tal modo, com os olhos
do coração, Jesus crucificado, que reconheça na carne do Senhor a sua própria
carne.
Trema a criatura perante o suplício do seu Redentor,
quebrem-se as pedras dos corações infiéis e saiam para fora, vencendo todos os
obstáculos, aqueles que jaziam debaixo de seus túmulos. Apareçam também agora
na cidade santa, isto é, na Igreja de Deus, como sinais da ressurreição futura
e realize-se nos corações o que um dia se realizará nos corpos.
A
nenhum pecador é negada a vitória da cruz e não há homem a quem a oração de
Cristo não ajude. Se ela foi útil para muitos dos que o perseguiam, quanto mais
não ajudará os que a ele se convertem?
A purificação espiritual por meio do jejum e da misericórdia - São Leão Magno
Em todo tempo, amados filhos, a terra está repleta da
misericórdia do Senhor (SI 32,5). À própria natureza é para todo fiel uma lição
que o ensina a louvar a Deus, pois o céu, a terra, o mar e tudo o que neles
existe proclamam a bondade e a onipotência de seu Criador; e a admirável beleza
dos elementos postos a nosso serviço requer da criatura racional uma justa ação
de graças.
O retorno, porém, desses dias que os mistérios da salvação
humana marcaram de modo mais especial e que precedem imediatamente a festa da
Páscoa, exige que nos preparemos com maior cuidado por meio de uma purificação
espiritual.
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