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Roteiro Homilético Solenidade de Todos os Santos

Primeira Leitura

Livro do Apocalipse de São João 7,2-4.9-14

S. João, nesta visão, descreve-nos «a multidão imensa que ninguém pode contar» dos fiéis «os santos» na posse da felicidade eterna. Depois da «grande tribulação» o Senhor os acolhe dando-lhe um grande prémio.

Numa grandiosa visão, o vidente de Patmos deixa ver que no meio de tantas desgraças e ainda antes que cheguem as piores, as que correspondem à abertura do 7º selo (cap. 8), os cristãos, que formam uma imensa multidão, estão sob a proteção de Deus, mesmo quando perseguidos e sujeitos ao martírio.


2-4 «O selo (o sinete de marcar) do Deus vivo». Alusão ao timbre então usado pelos monarcas para imprimir o sinal de propriedade ou autenticidade: por vezes os escravos e soldados eram marcados na pele com um ferro em brasa. O símbolo está tomado destes costumes da época e sobretudo da profecia de Ezequiel (Ez 9,4-6), por isso alguns Padres viram nesta marca, em forma de cruz (pela alusão ao tav de Ezequiel, a última consoante hebraica), o carácter baptismal. «Cento e quarenta e quatro mil» é um número simbólico; com efeito, os números do Apocalipse são habitualmente simbólicos, o que neste caso é evidente por se tratar de um jogo de números: 12 x 12000 (doze mil por cada uma das doze tribos de Israel). Estes 144.000, segundo uns, «representam toda a Igreja sem restrição» (Santo Agostinho), pois esta é o novo Israel de Deus (cf. Gal 6,16) e são a mesma «multidão imensa que ninguém podia contar» (v. 9). Segundo outros, estes 144.000 são os cristãos procedentes do judaísmo, muito particularmente os que foram poupados das calamidades que assolaram a Palestina, por ocasião da destruição da nação judaica no ano 70.

11 «Os (24) Anciãos». Há grande variedade de opiniões para decifrar este símbolo, não se podendo sequer estabelecer se se trata de seres angélicos ou humanos. Santo Agostinho diz que «são a Igreja universal; os 24 anciãos são os superiores jerárquicos e o povo: 12 representam os Apóstolos e os bispos, e os outros 12 representam o restante povo da Igreja». «Os 4 Viventes» (à letra, «animais»), uma tradução preferível a: «os 4 animais», uma vez que o terceiro tem rosto humano (cf. Apoc 4,7). A quem representam estes seres misteriosos, que reúnem características dos querubins de Ez 1 e dos serafins se Is 6? Podem muito bem simbolizar os quatro pontos cardeais, ou os quatro elementos do mundo (terra, fogo, água e ar), isto é, a totalidade do Universo. Deste modo, a presente «visão» apresenta-nos, unidos numa única adoração e louvor a Deus e a Cristo, os Anjos, a Humanidade resgatada e o próprio Universo material. A interpretação segundo a qual os Quatro Seres simbolizam os Quatro Evangelistas deve-se a Santo Irineu e é uma acomodação espiritual do texto inspirado.

12 «Amém! Bênção, glória…»: Aqui, como ao longo de todo o Apocalipse, sente-se como a liturgia da Igreja faz eco à liturgia celeste, especialmente nas aclamações a Deus e ao Cordeiro.

14 «A grande tribulação». Tanto se pode tratar duma perseguição aos cristãos mais violenta no fim dos tempos, como das perseguições e das tribulações em geral no curso da história da Igreja. Mas é provável que o vidente de Patmos tenha presente em primeiro plano, as violentas perseguições de Nero e Domiciano, muito embora englobando nestas todas as outras.

«Lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro». «Não se designam só os mártires, mas todo o povo da Igreja – comenta Santo Agostinho –, pois não disse que lavaram as suas túnicas no seu próprio sangue, mas no sangue do Cordeiro, isto é, na graça de Deus, por Jesus Cristo Nosso Senhor, conforme está escrito: e o seu sangue purifica-nos (1 Jo 1,7)».

Segunda Leitura

Primeira Carta de São João 3,1-3

É ainda S. João quem nos vai recordar como seremos santos: vivendo a nossa condição de filhos de Deus. Mas cuidado porque podemos perder esta filiação por nossa culpa. Só no céu ela será indefectível e inamovível.

A leitura é um dos textos clássicos da filiação adoptiva divina, uma exigência constante de santidade.

1 «E somo-lo de fato». S. João não se contenta com dizer que somos chamados filhos de Deus, o que bastaria para que um semita entendesse, pois para ele ser chamado (por Deus) equivalia a ser. S. João quer falar para que todos entendamos esta realidade sobrenatural que «o mundo», sem fé, não pode captar nem apreciar.

2 A filiação divina capacita-nos para a glória do Céu, pois não é uma mera adopção legal e extrínseca, como a adopção humana de um filho. A adopção divina implica uma participação da natureza divina (cf. 2Pe 1,4) pela graça. «Semelhantes a Deus», desde já; mas só na glória celeste se tornará patente o que já «agora somos». «O veremos tal como Ele é», esta é a melhor definição da infinda felicidade do Céu, de que gozam todos os Santos que hoje festejamos: contemplar a Deus tal qual Ele é, não apenas as suas obras, mas a Ele próprio, «face a face» (cf. 1Cor 13,12).

3 «Purifica-se a si mesmo». A certeza da filiação divina conduz-nos à purificação e à imitação de Cristo, o Filho de Deus por natureza: «como Ele é puro»; efetivamente, os puros de coração hão de ver a Deus (cf. Evangelho de hoje: Mt 5,8).

Evangelho

Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 5,1-12a

As 8 bem-aventuranças, expressas na terceira pessoa do plural, têm em Mateus um carácter solene e universal, para todas as pessoas e para todos os tempos. Elas condensam a grande novidade do Evangelho, em contraste flagrante com o próprio pensamento religioso judaico então vigente, para já não falarmos do espírito mundano, hedonista do paganismo de então e do de agora. Elas não são expressão de uma «ética dos débeis», mas, pelo contrário, dum ideal de vida para almas fortes e generosas. As bem-aventuranças correspondem a uma ética que, quando vivida a sério, é capaz de renovar as pessoas e a sociedade, como o demonstra a vida de todos os santos.

3 «Bem-aventurados». Esta tradução (em vez de «felizes») vinca a ideia de que o Senhor promete a felicidade na bem-aventurança eterna e, ao mesmo tempo, já nesta vida, ao dizê-la do presente: «deles é»(não diz «deles será»). As bem-aventuranças são o mais surpreendente código de felicidade, e não se trata de uma felicidade qualquer: é uma felicidade incomparável, interior e profunda, embora ainda não possuída de modo perfeito e completo na vida terrena.

«Os pobres em espírito». «No Antigo Testamento, o pobre está já delineado não só como uma situação económico-social, mas como um valor religioso muito elaborado: é pobre quem se apresenta diante de Deus com uma atitude humilde, sem méritos pessoais, considerando a sua realidade de homem pecador, necessitado do perdão divino, da misericórdia de Deus para ser salvo. Daí que, além de viver com uma sobriedade e uma austeridade de vida reais, efetivas, ele aceita e quer tais condições de pobreza não como algo imposto pela necessidade, mas voluntariamente, com afeto (…). A ‘explicação’ de Mateus, em espírito, sublinha a exigência dessa mesma pobreza: não é pobre em espírito quem só o é obrigado pela sua situação económico-social, mas sim quem, além disso, é pobre querendo essa pobreza de modo voluntário (…). Esta atitude religiosa de pobreza está muito relacionada com a chamada infância espiritual. O cristão considera-se diante de Deus como um filho pequeno que não tem nada como propriedade; tudo é de Deus, o seu Pai, e a Ele lho deve. De qualquer modo, a pobreza em espírito, isto é, a pobreza cristã, exige o desprendimento dos bens materiais e uma austeridade no uso deles» (J. M. CASCIARO). Pode-se ver o belo comentário de São Leão Magno no ofício de leitura da 6ª feira da semana XXII do tempo comum.

4 «Os humildes». A tradução preferiu um termo mais suave do que «os mansos», que são os que sofrem serenamente e sem ira, ódio ou abatimento, as perseguições injustas e as contrariedades. De facto só os humildes são capazes da virtude da mansidão, pois não dão demasiada importância a si próprios. A «terra» é a nova terra prometida, isto é, o Céu.

5 «Os que choram», isto é, os aflitos, e muito particularmente os que têm o coração cheio de mágoa por terem ofendido a Deus e que, com vontade de reparação, choram e deploram os seus pecados.

6 «Fome e sede de justiça». A ideia de justiça na Sagrada Escritura é uma ideia de natureza religiosa: justo é aquele que cumpre a vontade de Deus, e justiça corresponde a santidade, vocação a que todos são chamados.

8 «Os puros de coração» são, em geral, os que têm uma intenção reta, os que são capazes de um amor puro, limpo e nobre, os que têm um olhar reto e são; está, portanto, englobada a castidade, mas não é só ela a ser referida aqui.

9 «Os que promovem a paz» (uma tradução mais expressiva do que os pacíficos) são os que promovem a paz entre os homens e dos homens com Deus, fundamento sério de toda a paz no mundo.

11-12 Depois das 8 bem-aventuranças anteriores, que formam um bloco (uma inclusão marcada pela fórmula «porque deles é o reino dos Céus»: vv. 3 e 10), há uma ampliação e uma aplicação direta aos ouvintes da 8ª e última bem-aventurança.

Sugestões para reflexão

1. Uma família de vivos

Quando Pio XII resolveu escolher o dia 1 de Novembro de 1950 para solenemente definir o dogma da Assunção de Nossa Senhora ao Céu em corpo e alma, ou seja, o triunfo de Maria, nossa Mãe, não faltou quem lamentasse semelhante ideia dizendo que esse dia é um dia de tristeza e de saudade, é a festa dos mortos.

Nada mais errado. Todos os Santos não é isso. Esta festa fala-nos do mundo invisível que os olhos não alcançam mas que sabemos pela fé ser uma realidade. Cremos que a multidão das almas que já estão reunidas ao redor de Jesus e de Maria, no Paraíso, formam a igreja do Céu, onde, na eternidade feliz, veem a Deus como Ele é (Credo do Povo de Deus).

Neste dia a Igreja levanta-nos o véu que nos separa do invisível deixando-nos antever o além para onde caminhamos: a perfeição do Corpo de Cristo, nos esplendores da intimidade com Deus; a felicidade sem fim, com Deus, de todos aqueles e aquelas que, como nós, caminharam e lutaram sobre a terra para realizar e fazer triunfar o programa evangélico das Bem-aventuranças: amor, justiça e paz.

Neste dia celebramos com toda a Igreja (o Povo de Deus em marcha, a família dos redimidos) a alegria e a felicidade destes homens plenamente realizados que são os Santos. Não estão mortos, mas vivos. Pertencem não somente a todas as nações, tribos, povos e línguas (1.ª leit.), como ainda a todas as religiões e confissões. São uma multidão incontável. Cada qual escutou, na vida, o apelo das Bem-aventuranças. Cada qual, segundo a sua vida e à sua maneira, respondeu ao convite do Senhor. Hoje a Igreja mostrando-nos reunidos na unidade.

O Papa teve razão ao escolher esta data para a proclamação da glória de Maria. Esta festa é uma antecipação da grande festa eterna à qual são convidados todos os homens de boa vontade. A Mãe de Jesus, já glorificada no céu em corpo e alma, é imagem e primícia da Igreja, que há de atingir a sua perfeição no século futuro (L. G. 68). O espetáculo que se desenrolou, na Praça de S. Pedro, naquele dia, era a imagem clara daquilo que nos descreve S. João na 1.ª leitura. Ali se palpava a realidade do dogma da Igreja unida para cantar as glórias da Sua Mãe. Depois da Assunção da Mãe, haverá a Assunção dos filhos (Mons.Thèas). Agora apenas na alma. Depois também no corpo, como Ela.

2. Santos Anónimos

São milhares e milhares de pessoas em múltiplas atividades de voluntariado, nos hospitais, nas prisões, nos bairros degradados, junto dos sem-abrigo, dos que vivem sós, em suas casas ou nos Lares de Terceira Idade.

Heróis anónimos são também as mães que se levantam muito cedo para levar os filhos ao infantário e deixar as refeições preparadas em casa, porque só vão regressar, à tardinha, depois de uma extenuante jornada de trabalho. São os pais que se desdobram numa luta pelo emprego, que já não está fácil, inventando, aqui e ali, alternativas para equilibrar os seus magros orçamentos. São os jovens, que resistindo ao facilitismo e à civilização do prazer efémero e do «deixa correr, que tudo isto é para gastar e gozar» se esforçam por fazerem o que a consciência lhes, dita, por ser fiéis aos valores familiares e cristãos que os seus antepassados lhes legaram.

São os pescadores que todas as noites buscam no mar o pão de cada dia, indiferentes aos perigos que os cercam. São os agricultores que suportam as inclemências do tempo e tiram da terra, com suor e lágrimas, os alimentos de que todos precisamos.

São os condutores de autocarros e comboios que sem liberdade para as suas divagações, se vergam com a responsabilidade de milhares de vidas nas suas costas. São os polícias chamados a acudir a quem precisa, não sabendo que perigos escondem para si, a escuridão e a maldade dos outros.

São os médicos e enfermeiros que velam no silêncio de um qualquer hospital, a disposição de um pedido de ajuda. São também, milhares de homens e mulheres, com nome e rosto, de carne e osso como nós, com um futuro material risonho à sua frente, mas que, renunciam à família, ao dinheiro e ao protagonismo social para serem servos de todos, impulsionados pela sua fé sincera em Deus e em Jesus Cristo incarnado no outro, naquele que está ao nosso lado e que se descobre sempre como um irmão que importa ajudar hoje, com atos concretos de heroísmo, e não com piedosos sentimentos de compaixão.

Refiram-se ainda, com acentuado toque de gratidão, no rol dos heróis anónimos, os dedicados e sacrificados professores, votados à tarefa espinhosa (diríamos até de alto risco) de educar crianças e jovens, com as suas traquinices e rebeldias, na rotina diária das nossas escolas, os muitos clérigos e religiosos a trabalhar em Instituições da igreja, que testemunham, por montes e vales, com modelares obras de solidariedade social, o verdadeiro humanismo cristão, acolhendo e tratando, com muito amor, com dedicação extrema, aqueles que a família e a sociedade lhes confiam, nos Lares, nos Centros de Dia. nos Jardins de Infância ou nos Hospitais.

Afinal, este nosso mundo, não é assim tão mau como, às vezes o pintam. O mal, porque é uma anormalidade, vem mais vezes ao de cima, nos noticiários que nos entram em casa a toda a hora.

Mas o bem, desinteressado e heroico, praticado por gente de todas as idades, em cada dia que passa, é igualmente uma consoladora realidade, a provar que Deus não abandona as suas criaturas.

3. A Comunhão dos Santos vivida em plenitude.

Cremos na comunhão de todos os fiéis de Cristo: dos que ainda peregrinam sobre a terra, dos defuntos que ainda estão em purificação e dos bem-aventurados do Céu, formando todos juntos uma só Igreja (Credo do Povo de Deus). O dogma da Comunhão dos Santos é dos mais consoladores da nossa fé, desde que retamente entendido. Não tem nada de alienante nem de utópico.

Os primeiros cristãos viveram-no como ninguém. O facto de colocarem tudo em comum, inclusive os próprios bens materiais (Apoc 4,34), era a prova máxima desta vivência. Nas dificuldades e no pecado a reação espontânea era de amor para com aquele irmão que estava em perigo, em dificuldade. E assim ele encontrava a força para reconhecer o seu pecado e, graças ao amor, corrigia-se.

Do mesmo modo que a comunhão cristã, entre os que peregrinam neste mundo, nos coloca mais perto de Cristo, assim também a familiaridade com os santos nos une com Cristo, de Quem promana, como de Fonte e Cabeça, toda a graça e a própria vida do Povo de Deus (L. G. 50). Agora compreendemos melhor a razão porque a Igreja insiste tanto na celebração comunitária dos atos do culto a qual se deve preferir, na medida do possível, à celebração individual e como que privada (S.C. 27).

A intercessão dos Santos apresenta-se sempre como um pedido e uma súplica. Nunca como um direito nem muito menos como um favor à margem da vontade de Deus. Importa «corrigir ou suprimir quaisquer abusos, excessos ou defeitos que acaso se tenham introduzido no culto dos Santos e que tudo se restabeleça ordenadamente para maior glória de Cristo e de Deus» (L. G. 51).

Comunhão dos Santos, eu beneficio do teu tesouro (Francisco Coppée).

Fonte: presbiteros.com.br
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