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Roteiro Homilético 17º Domingo do Tempo Comum - Ano C

Introdução ao espírito da Celebração

O homem não foi feito para a solidão, para o isolamento. Está chamado à comunhão com Deus e com os outros homens, nesta vida e na futura. Esta comunhão fomenta-se e intensifica-se através do diálogo. Um dos modos de comunicar do coração humano é a fala. Do encontro nasce a amizade, vocacionada para crescer até à comunhão perfeita no Céu.

Deus planeou que homem se encontrasse com Ele, como um filho com o Pai, num diálogo íntimo a que chamamos oração. Por isso, ela não algo acidental na vida, mas uma parte importante da nossa vida de filhos de Deus.


Na Liturgia da Palavra de hoje, a Igreja ensina-nos a importância que devemos reservar à oração na nossa vida e como a havemos fazer. Preparemo-nos para acolher esta mensagem confortante para a nossa vida com Deus.

Primeira Leitura

Abraão fala com o Senhor face a face, intercedendo pelas cidades pecadoras. É um exemplo claro de como havemos de fazer oração: com humildade, reverência, respeito, mas também com ousadia e confiança, manifestando ao nosso Pai do Céu o que nos inquieta, as nossas dúvidas e anseios. Por meio dela tentamos ainda perceber os projetos de Deus para o mundo e para cada um de nós.

20-21 «O clamor que chegou até Mim…» Desta expressão procede a catalogação nos catecismos do pecado de homossexualidade ou sodomia como um «pecado que brada aos Céus», dada a sua especial gravidade, contra a natureza: «o seu pecado é tão grave…» «Vou descer, para verificar…» Trata-se dum antropomorfismo que empresta grande colorido e vivacidade ao relato, e que caracteriza a tradição javista. Esta maneira de falar de Deus à maneira humana põe aqui em evidência a justiça divina que não pune sem o pleno conhecimento da causa.

23-32 «Cinquenta… quarenta e cinco… quarenta… trinta… vinte… dez». Chamamos a atenção para a mentalidade de responsabilidade coletiva, corrente em Israel, que está na base do episódio, segundo a qual também os inocentes têm de sofrer o castigo juntamente com os culpados: para não haver castigo era uma questão de um relativo número de inocentes. O relato deixa ver que Deus não castiga o inocente junto com o pecador, como pensava Abraão; esta verdade da responsabilidade individual há-de ser bem vincada nos Profetas (cf. Jer 31,29-30; Ez 18,1-32). De qualquer modo, não deixa de ser enternecedor este diálogo, esta oração de intercessão ao Senhor, toda repassada de confiança e santo temor, perseverança, humildade e audácia santa. Se Deus não precisa das nossas insistências para nos atender, nós precisamos de nos colocar no nosso lugar de pedintes, para nos dispormos, com a nossa impertinência, a receber os dons que Deus tem para nos dar (cf. a parábola do «amigo impertinente» do Evangelho de hoje).

Segunda Leitura

Na Carta aos Colossenses, S. Paulo convida-nos a fazer de Cristo a referência fundamental da nossa vida. Neste contexto de reflexão sobre a oração, podemos dizer que Cristo tem de ser a referência e o modelo de todos os que rezam: quer na frequência com que se dirige ao Pai, quer na forma como dialoga com o Pai.

1 «Sepultados… ressuscitados…» Cf. Rom 6, 3-4, onde S. Paulo faz apelo ao simbolismo do Baptismo por imersão: simbolizava a morte e a sepultura para o pecado, no gesto de se ficar submerso na água; o subsequente ato de emergir da água simbolizava a Ressurreição, a vida nova que o cristão tem de viver em união com Cristo ressuscitado. Mas esta morte e ressurreição do Cristo não são uma mera metáfora, são uma realidade sobrenatural, são o mistério da vida cristã, uma vida em Cristo.

14 «Anulou o documento». A nossa sugere uma possível interpretação desta difícil passagem, tendo em conta uma tradição rabínica, segundo a qual os pecados das pessoas ficavam escritos num livro divino de registos; este documento era redigido a partir das transgressões da Lei «com as suas disposições contra nós». Mas Deus, ao perdoar-nos todas as nossas faltas (v. 13), «anulou o documento da nossa dívida»: «Suprimiu-o, cravando cravando-o na Cruz». Com esta imagem de cravar na Cruz exprime-se a destruição radical e definitiva salvação, por força da Morte redentora de Cristo.

Evangelho

Com uma paciência infinita, Jesus ensina-nos a fazer oração e desvenda-nos os seus tesouros. Ensina-nos que a oração do fiel deve ser um diálogo confiante de uma criança com o seu «papá». Somos convidados a descobrir em Deus «o Pai» e a dialogar frequentemente com Ele acerca desse mundo novo que o Ele quer oferecer-nos. Aclamemos o Evangelho que faz chegar até nós estas confortantes verdades.

1 «Em certo lugar». Uma antiga tradição, que deu origem à igreja do Pai-Nosso, identifica este lugar com o Monte das Oliveiras. No claustro dessa basílica constantiniana pode-se ler o Pai-Nosso em enorme quantidade de línguas, entre as quais o português.

2 «Quando orardes, dizei». A fórmula de S. Lucas é mais pequena: apenas 5 petições das 7 de Mt 6, 9-13. A diversidade dos contextos poderá favorecer a opinião de que Jesus possa ter, por várias vezes, ensinado uma fórmula não literalmente idêntica. No entanto, a maioria dos exegetas modernos inclina-se para que as duas versões da oração dominical remontem a uma única fórmula básica primitiva, mais próxima da de Lucas. Na vida da Igreja, se difundiu a fórmula mais longa de Mateus.

5-8 A parábola do amigo importuno introduz o ensinamento de Jesus sobre o valor e a eficácia da oração confiada e persistente («também Eu vos digo»: vv. 9-13) – «Batei à porta, e abrir-se-vos-á». O Catecismo da Igreja Católica, nº 2613, comenta: «àquele que assim ora, o Pai celeste «dará tudo quanto necessita», e dará, sobretudo, o Espírito Santo, que encerra todos os dons».

Sugestões para a homilia

Estamos em tempo de prova na terra, no uso da liberdade, e caminhamos para uma comunhão perfeita e eterna com a Santíssima Trindade e com os anjos e os santos.

Um dos meios para fomentarmos esta comunhão íntima é o diálogo com Deus a que chamamos oração.

A oração, diálogo entre o filho e o Pai

O diálogo de Abraão com Deus, intercedendo pelas cidades pecadoras, é cheio de beleza e de ensinamentos.

a) Encontro com Deus. «Os homens que tinham vindo à residência de Abraão dirigiram-se então para Sodoma, enquanto o Senhor continuava junto de Abraão.»

Quando vamos fazer oração, não havemos de entrar impensadamente, distraídos, mas tomando consciência de que estamos diante do nosso Pai do Céu.

Muitas vezes fazemos mal a oração e não lhe ganhamos afeição porque a fazemos mal. Começamos precipitadamente nem parar um momento a pensar o que vamos fazer, na Presença de Quem estamos e o que queremos pedir-Lhe.

Isto acontece principalmente na oração vocal, começando a balbuciar fórmulas sem lhe prestar atenção.

Guardemos este conselho de um santo: «Repara no que dizes, quem o diz e a quem»

Comecemos por nos pormos na presença de Deus, façamos um acto de humildade diante d’Ele, reconhecendo a santidade e grandeza do Senhor e a nossa pequenez.

Lembremo-nos de que, mesmo quando estamos distraídos, Ele está atento ao que vamos dizer-Lhe, como se não houvesse mais ninguém no mundo.

b) Abrir o coração ao Senhor. «Este aproximou-se e disse: ‘Irás destruir o justo com o pecador?’»

Quando vamos orar, abrimos o coração ao Senhor, falando-Lhe confiadamente do que nos preocupa.

A oração do santo Patriarca Abraão é um exemplo de como devemos orar: trava um diálogo com Deus, um diálogo humilde, reverente, respeitoso, íntimo, cheio de confiança, de ousadia e de esperança.

Não cai numa repetição de palavras ocas, como se fossem gravadas e repetidas por um gravador ou por um papagaio, mas é um diálogo espontâneo e sincero, no qual ele se expõe e coloca diante de Deus tudo aquilo que lhe enche o coração.

A oração que fazemos é um diálogo como este, espontâneo, vivo, confiante com Deus, ou é uma repetição fastidiosa de fórmulas feitas, mastigadas à pressa e sem significado nem atenção?

Não podemos viver uma vida real e outra imaginária que apresentamos ao Senhor na oração.

Neste abrir o coração havemos de guardar espaço para que o Senhor abra o Seu Coração divino connosco. É importante falar e ouvir.

c) Familiaridade no diálogo. «Abraão insistiu: ‘Atrevo-me a falar ao meu Senhor, eu que não passo de pó e cinza.’»

O diálogo de Abraão com o Senhor – modelo da nossa oração – é cheio de familiaridade. Abraão, em palavras simples, como quem conversa com o maior dos amigos, não procura palavras solenes, com efeito oratório, mas familiares: «Atrevo-me a falar ao meu Senhor»; «Se o meu Senhor não levar a mal, falarei mais uma vez»; «Atrevo-me ainda a falar ao meu Senhor.»

Depois deste diálogo intenso entre Abraão e Deus, houve algum resultado palpável desta oração?

À primeira vista parece que nada se conseguiu. As cidades acabaram por ser destruídas até aos dias de hoje. Olhando tudo isto com maior atenção, verificamos que se salvou Lot, o sobrinho de Abraão, com toda a sua família. Os poucos justos foram afastados das cidades, para não perecerem juntamente com os pecadores.

Além disso, manifestou-se a riqueza do coração de Abraão, preocupado com a sorte dos outros.

Nunca regressámos da oração de mãos vazias. Deus responde sempre antes, mais e melhor do que esperamos e pedimos.

É sempre verdade o que proclamamos no salmo responsorial: «Quando Vos invoco, sempre me atendeis, Senhor.»

Disposições para fazer oração

À imitação dos Apóstolos, também nós devemos pedir humildemente ao Senhor que nos ensine a fazer oração. Quando nos disponibilizamos para orar, deveríamos começar por aqui.

a) Lembrança da filiação divina. «Quando orardes, dizei: ‘Pai.’»

É a primeira recomendação de Jesus, quando vamos fazer oração: lembrarmo-nos de que não nos vamos dirigir a alguém muito acima do nosso nível social, económico ou cultural, a quem é preciso fazer muitas mesuras antes de começar a falar. Tudo é muito mais simples: dirigimo-nos ao nosso Pai do Céu. E, como Pai:

• Não tem horários de atendimento. Está sempre disponível: de noite ou de dia, quando estamos na rua, no trabalho, na cama ou no templo. Basta um leve bater à Sua porta, manifestando que Lhe queremos falar, e logo somos recebidos em audiência com toda a cordialidade.

• Nem restrição de assuntos. Estamos habituados a que as pessoas importantes comecem a mastigar, quando lhes falamos em determinados temas, a deixar reticências nas conversas, ou simplesmente a dizer que não é conveniente meter-se neste assunto.

Com o nosso Pai é diferente. Encara os assuntos e ilumina-nos, para vermos as suas implicações, acabando por nos ajudar a encontrar uma solução.

• Nem respostas evasivas. Muitas vezes saímos das entrevistas com os homens de alma vazia, desiludidos ou, pelo menos, com uma enorme incerteza sobre a segurança que nos merecem as suas palavras.

O Senhor faz-nos ver cordialmente se uma solução não nos convém e porque não nos convém.

É sempre muito agradável falar com o nosso Pai do Céu.

b) Comunhão com a vontade do Pai. «santificado seja o vosso nome; venha o vosso reino.»

É a confiança ilimitada no melhor dos pais que nos leva a esta comunhão com a Sua vontade. Sabemos de antemão que nos ama e escolhe sempre o melhor para nós.

Somos tentados, por vezes, a forçá-l’O para seguir a nossa vontade. Pedimos cm insistência, sem admitir outras hipóteses de solução do problema que Lhe apresentamos; e se Ele nos leva por outros caminhos, ficamos amuados. Às vezes até dizemos que encontramos em crise de fé.

A fé ensina-nos que Ele sabe infinitamente mais do que nós. E, como nos ama, escolhe cuidadosamente o que é melhor.

Perseveremos na oração e substituamos em nosso vocabulário certas expressões: nunca digamos «não consegui», mas «ainda não consegui». E não digamos «o Senhor não me deu o que pedia», mas o Senhor vai dar-me melhor do que o pedido». Quando fazemos oração, ou recebemos o que pedimos, ou outra graça maior.

Descansemos na certeza da fé de que Deus nos ama com loucura… e ficaremos cheios de paz, mesmo quando não alcançamos o que tínhamos pedido. Poderia parecer que a oração do Jardim das Oliveiras ficou sem resposta. Mas não: Cristo recebeu – humanamente falando – força para cumprir até ao fim o plano salvador do Pai; e apareceu-Lhe um anjo que confortava. Nunca voltamos da oração com as mãos vazias.

c) O que havemos de pedir. «dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência; perdoai-nos os nossos pecados, […]; e não nos deixeis cair em tentação».

Todos guardamos uma interminável lista de pedidos para apresentar ao Senhor na oração. Por vezes, um assunto sobrepõe-se aos outros.

O Senhor não nos desanima de pedirmos o que quisermos. Mas ensina-nos a ter uma hierarquia de valores.

• O pão de cada dia. E, ao fazê-lo, não pensemos exclusivamente no pão para a nossa boca. Peçamos, principalmente o Alimento Eucarístico.

Com este pedido vão implícitos outros: o dom de termos sempre sacerdotes em número suficiente, porque, sem eles, não há Eucaristia; a graça de sentirmos fome de o receber, porque de nada nos adianta ter alimento, se o não queremos tomar; a bênção de termos junto de nós um sacerdote, quando precisarmos do viático para a grande viagem.

Somos sinceros e lógicos, quando pedimos o pão de cada dia e, podendo sem grande esforço, participar na santa Missa todos os dias, o não fazemos por preguiça?

• A vitória sobre o Maligno. Reconhecemos com esta prece a nossa debilidade e a facilidade com que nos deixamos enganar.

Mais uma vez somos encorajados a fazer o que está ao nosso alcance para esta vitória:

– O fortalecimento na oração e sacramentos.

– A fuga das ocasiões.

A santa Missa é o lugar por excelência para viver em intimidade com Deus: escutando a Sua Palavra e recebendo-O sacramentalmente.

Que a Mãe de Deus e nossa Mãe nos ajude e ensine a fazê-lo.

Fonte: presbiteros.com.br
Foto retirada da internet caso seja o autor, por favor, entre em contato para citarmos o credito.

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Ricardo Feitosa e Marta Lúcia
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