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A Tradição da
Igreja confirma esta verdade abundantemente. Da Didaquè (ou Doutrina dos Doze
Apóstolos) A Didaquè é como um antigo catecismo, redigido entre os anos 90 e
100, na Síria, na Palestina ou em Antioquia. Traz no título o nome dos doze Apóstolos.
Os Padres da Igreja mencionaram-na muitas vezes. Em 1883 foi encontrado um seu
manuscrito grego. “Reunidos no dia do Senhor (dominus), parti o pão e daí
graças, depois de confessardes vossos pecados, a fim de que vosso sacrifício
seja puro. Quem tiver divergência com seu companheiro não deve juntar-se a nós
antes de se reconciliar, para que não seja profanado vosso sacrifício, conforme
disse o Senhor: “Que em todo lugar e tempo me seja oferecido um sacrifício
puro, pois sou um rei poderoso, diz o Senhor, e meu nome é admirável entre as
nações.” (Ml 1,11) (n. XIV)
Quanto à Eucaristia,
celebrai-a assim:
Primeiro, sobre o cálice: Damos-te graças, Pai nosso, pela
santa videira de Davi, teu servo, que nos deste a conhecer por Jesus, teu
Servo. Glória a ti nos séculos! Depois sobre o pão partido: Damos-te graças,
Pai nosso, pela vida e pela sabedoria que nos deste a conhecer por Jesus, teu
Servo. Glória a ti nos séculos! Assim como esse pão, outrora disseminado sobre
as montanhas, uma vez ajuntado, se tornou uma só massa, seja também reunida tua
Igreja, desde as extremidades da terra, em teu reino, pois a ti pertence a
glória e o poder, por Jesus Cristo, para sempre. Que ninguém coma ou beba da
vossa eucaristia se não for batizado em nome do Senhor, pois a este respeito
disse ele: “Não deis aos cães o que é santo” (Mt 7,6).
Depois de vos terdes saciado, daí graças assim: Nós Te damos
graças, Pai Santo, pelo teu santo nome que puseste em nossos corações, e pelo
conhecimento, pela fé e imortalidade que nos deste por meio de Jesus, teu
Servo. Glória a ti nos séculos! Tu, Senhor onipotente, tudo criaste para honra
e glória do teu nome; e deste alimento e bebida aos homens, para seu desfrute;
a nós porém, deste um alimento e uma bebida espirituais e a vida eterna, por
meio do teu Servo. Assim, antes de tudo, damos-te graças porque és poderoso.
Glória a ti nos séculos! Lembra-te Senhor, de livrar do mal a tua Igreja, e de
torná-la perfeita em teu amor. Congrega-a dos quatro ventos, santificada no
reino que lhe preparaste, pois a ti pertence o poder e a glória, para sempre!
Hosana ao Deus de Davi! Se alguém é santo, aproxime-se; se alguém não é,
converta-se! Maranathã. Amém. Quanto aos profetas, deixai-os render graças o
quanto quiserem. (n.10)
Santo Inácio de Antioquia
(+102), bispo e mártir
“Esforçai-vos, portanto, por vos reunir mais frequentemente,
para celebrar a eucaristia de Deus e o seu louvor. Pois quando realizais
frequentes reuniões, são aniquiladas as forças de Satanás e se desfaz seu
malefício por vossa união na fé. Nada há melhor do que a paz, pela qual cessa a
guerra das potências celestes e terrestres.” (Carta aos Efésios)
São Justino (+165), mártir
Nasceu em
Naplusa, antiga Siquém, em Israel; achou nos Evangelhos “a única filosofia
proveitosa”, filósofo, fundou uma escola em Roma. Dedicou as sua “Apologias” ao
Imperador romano Antonino Pio, no ano 150, defendendo os cristãos; foi
martirizado em Roma. Terminadas as orações, damos mutuamente o ósculo da paz.
Apresenta-se, então, a quem preside aos irmãos, pão e um vaso de água e vinho,
e ele tomando-os dá louvores e glória ao Pai do universo pelo nome de seu Filho
e pelo Espírito Santo, e pronuncia uma longa ação de graças em razão dos dons
que dele nos vêm. Quando o presidente termina as orações e a ação de graças, o
povo presente aclama dizendo: Amém… Uma vez dadas as graças e feita a aclamação
pelo povo, os que entre nós se chamam diáconos oferecem a cada um dos
assistentes parte do pão, do vinho, da água, sobre os quais se disse a ação de
graças, e levam-na aos ausentes. Este alimento se chama entre nós Eucaristia,
não sendo lícito participar dele senão ao que crê ser verdadeiro o que foi
ensinado por nós e já se tiver lavado no banho (batismo) da remissão dos
pecados e da regeneração, professando o que Cristo nos ensinou. Porque não
tomamos estas coisas como pão e bebida comuns, mas da mesma forma que Jesus
Cristo, nosso Senhor, se fez carne e sangue por nossa salvação, assim também se
nos ensinou que por virtude da oração do Verbo, o alimento sobre o qual foi
dita a ação de graças – alimento de que, por transformação, se nutrem nosso
sangue e nossas carnes – é a carne e o sangue daquele mesmo Jesus encarnado. E
foi assim que os Apóstolos, nas Memórias por eles escritas, chamadas
Evangelhos, nos transmitiram ter-lhe sido ordenado fazer, quando Jesus, tomando
o pão e dando graças, disse: “Fazei isto em memória de mim, isto é o meu
corpo.”
E igualmente,
tomando o cálice e dando graças, disse: “Este é o meu sangue, o qual somente a
eles deu a participar… No dia que se chama do Sol (domingo) celebra-se uma
reunião dos que moram nas cidades e nos campos e ali se leem, quanto o tempo
permite, as Memórias dos Apóstolos ou os escritos dos profetas. Assim que o
leitor termina, o presidente faz uma exortação e convite para imitarmos tais
belos exemplos. Erguemo-nos, então, e elevamos em conjunto as nossas preces,
após as quais se oferecem pão, vinho e água, como já dissemos. O presidente
também, na medida de sua capacidade, faz elevar a Deus suas preces e ações de
graças, respondendo todo o povo “Amém”. Segue-se a distribuição a cada um , dos
alimentos consagrados pela ação de graças, e seu envio aos doentes, por meio
dos diáconos. Os que têm, e querem, dão o que lhes parece, conforme sua livre
determinação, sendo a coleta entregue ao presidente, que assim auxilia os
órfãos e viúvas, os enfermos, os pobres, os encarcerados, os forasteiros,
constituindo-se, numa palavra, o provedor de quantos se acham em necessidade.” (Apologias)
Santo Ireneu (140-202)
“Dado que nós seus membros (de Cristo), nos alimentamos de
coisas criadas, (as quais, aliás, ele mesmo nos oferece…), também quis fosse
seu sangue o cálice de vinho, extraído de Criação, para com ele robustecer
nosso sangue; quis fosse seu corpo o pão, também proveniente da Criação, para
com ele robustecer nossos corpos. Se, pois, a mistura do cálice e pão recebem a
palavra de Deus tornando-se a Eucaristia do sangue e do corpo de Cristo, pelos
quais cresce e se fortifica a substância de nossa carne, como se haverá de
negar à carne, assim nutrida com o corpo e sangue de Cristo, e feita membro do
seu corpo, a aptidão de receber o dom de Deus, a vida eterna? Assim como a muda
da videira, depositada na terra, depois frutifica, e o grão de trigo, caído no
solo e destruído, ressurge multiplicado pela ação do Espírito de Deus que tudo
sustém; e em seguida pela arte dos homens se fazem dessas coisas vinho e pão,
que pela palavra de Deus se tornam a Eucaristia, corpo e sangue de Cristo;
assim também nossos corpos, alimentados com a Eucaristia, ao serem depositados
na terra e aí destruídos, vão ressurgir um dia para a glória do Pai, quando a
palavra de Deus lhes der a ressurreição. O Pai reveste de imortalidade o que é
mortal, dá gratuitamente a incorrupção ao que é corruptível, pois o poder de
Deus se manifesta na fragilidade.” (Contra as heresias, lv 5, cap. 2, 18,19,20)
Santo Hipólito de Roma
(160-235)
Discípulo de Santo Ireneu (140-202), foi célebre na Igreja
de Roma, onde Orígenes o ouviu pregar. Morreu mártir. Escreveu contra os
hereges, compôs textos litúrgicos, escreveu a -Tradição Apostólica- onde
retrata os costumes da Igreja no século III: ordenações, catecumenato, batismo
e confirmação, jejuns, ágapes, eucaristia, ofícios e horas de oração,
sepultamento, etc.
Logo que se
tenha tornado bispo, ofereçam-lhe todos o ósculo da paz, saudando-o por ter se
tornado digno. Apresentem-lhe os diáconos a oblação e ele, impondo as mãos
sobre ela, dando graças com todo o presbiterium, diga: O Senhor esteja
convosco. Respondam todos: E com o teu espírito. “Corações ao alto!” Já os
oferecemos ao Senhor. “Demos graças ao Senhor.” É digno e justo. E prossiga a
seguir: Graças te damos, Deus, pelo teu Filho querido, Jesus Cristo, que nos
últimos tempos nos enviastes, Salvador e Redentor, mensageiro da tua vontade,
que é o teu Verbo inseparável, por meio do qual fizestes todas as coisas e que,
porque foi do teu agrado, enviaste do Céu ao seio de uma Virgem; que, aí
encerrado, tomou um corpo e revelou-se teu Filho, nascido do Espírito Santo e
da Virgem. Que, cumprindo a tua vontade – e obtendo para ti um povo santo –
ergueu as mãos enquanto sofria para salvar do sofrimento os que confiaram em ti.
Que, enquanto era entregue à voluntária Paixão para destruir a morte, fazer em
pedaços as cadeias do demônio, esmagar os poderes do mal, iluminar os justos,
estabelecer a Lei e dar a conhecer a Ressurreição, tomou o pão e deu graças a
ti, dizendo: Tomai, comei, isto é o meu Corpo que por vós será destruído;
tomou, igualmente, o cálice, dizendo: Este é o meu Sangue, que por vós será
derramado. Quando fizerdes isto, fá-lo-eis em minha memória. Por isso, nós que
nos lembramos de sua morte e Ressurreição, oferecemos-te o pão e o cálice,
dando-te graças porque nos considerastes dignos de estar diante de ti e de
servir-te. E te pedimos que envies o Espírito Santo à Oblação da santa Igreja:
reunindo em um só rebanho todos os fiéis que recebemos a Eucaristia na plenitude
do Espírito Santo para o fortalecimento da nossa fé na verdade, concede que te
louvemos e glorifiquemos, pelo teu Filho Jesus Cristo, pelo qual a ti a glória
e a honra – ao Pai e ao Filho, com o Espírito Santo na tua santa Igreja, agora
e pelos séculos dos séculos. Amém. (Tradição Apostólica)
Santo Hilário de Poitiers
(316-367)
Doutor da Igreja, foi bispo de Poitiers, combateu o
arianismo, foi exilado pelo imperador Constâncio, escreveu sobre a Santíssima
Trindade: “Ele mesmo diz: – Minha carne é verdadeiramente comida e meu sangue é
verdadeiramente bebida. Quem come da minha carne e bebe do meu sangue, fica em
mim e eu nele” (Jo 6,56). Quanto à verdade da carne e do sangue, não há lugar
para dúvida; é verdadeiramente carne e verdadeiramente sangue, como vemos pela
própria declaração do Senhor e por nossa fé em suas palavras. Esta carne, uma
vez comida, e este sangue, bebido, fazem que sejamos também nós um em Cristo, e
o Cristo em nós. Não é isto verdade? Não o será para os que negam ser Jesus Cristo
verdadeiro Deus! Ele está, pois, em nós por sua carne, e nós nele, e ao mesmo
tempo o que nós somos está com Ele em Deus. Ele está em nós pelo mistério dos
sacramentos, como está no Pai pela natureza da sua divindade, e nós nele pela
sua natureza corporal. Ensina-se, portanto, que pelo nosso Mediador se consuma
a unidade perfeita, pois enquanto nós permanecemos nele, ele permanece no Pai,
e, sem deixar de permanecer no Pai, permanece também em nós, e assim nós
subimos até à unidade do Pai. Ele está no Pai, fisicamente, segundo a origem de
sua eterna natividade, e nós estamos nele, fisicamente, enquanto também está em
nós fisicamente. (Sobre a Santíssima Trindade)
São Cirilo de Jerusalém
(+386)
Bispo de
Jerusalém, guardião da fé professada pela Igreja no Concilio de Nicéia (325). Autor
das Catequeses Mistagógicas, esteve no segundo Concilio Ecumênico, em
Constantinopla, em 381. “Quanto a mim, recebi do Senhor o que também vos
transmiti” etc. (1Cor 11,23). Esta doutrina de São Paulo é bastante para
produzir plena certeza sobre os divinos mistérios pelas quais obtendes a
dignidade de vos tornardes concorpóreos e consanguíneos de Cristo. Quando,
pois, ele mesmo declarou do pão: “isto é o meu corpo”, quem ousará duvidar? E
quando ele asseverou categoricamente: “isto é o meu sangue”, quem ainda terá
dúvida, dizendo que não é? Outrora, em Caná da Galileia, por sua vontade,
mudara a água em vinho, e não seria também digno de fé, ao mudar o vinho em
sangue?… É, portanto, com toda a segurança que participamos de certo modo do
corpo e sangue de Cristo: em figura de pão é deveras o corpo que te é dado, e
em figura de vinho o sangue, para que, participando do corpo e sangue de
Cristo, te tornes concorpóreo e consanguíneo dele. Passamos a ser assim
cristóforos, isto é, portadores de Cristo, cujo corpo e sangue se difundem por
nossos membros. E então, como diz S. Pedro, participamos da natureza divina
(2Pe 1,4). Não trates, por isso, como simples pão e vinho a este pão e vinho,
pois, são, respectivamente, corpo e sangue de Cristo, consoante a afirmação do
Senhor. E ainda que os sentidos não o possam sugerir, a fé no-lo deve confirmar
com segurança. Não julgues a coisa pelo paladar. Antes pela fé, enche-te de
confiança, não duvidando de que foste julgado digno do corpo e sangue de
Cristo. Ao te aproximares, não o faças com as mãos estendidas nem com os dedos
separados. Fazer como a esquerda como um trono na qual se assente a direita,
que vai conter o Rei. E, no côncavo da palma, recebe o Corpo de Cristo,
respondendo: “Amém”. Com segurança, então, depois de santificados teus olhos
pelo contato do santo corpo, recebe-o, cuidando para nada perderes… Depois,
aguardando a oração, dá graças a Deus que te fez digno de tão grandes
mistérios. Conservai invioláveis estas tradições, guardai-as sem falha.
(Catequeses Mistagógicas)
Nota: A Tradição
da Igreja nos mostra que os primeiros cristãos que na celebração da Eucaristia,
torna-se presente a própria oblação de Cristo ao Pai feita no Calvário. É
importantíssimo entender que não se trata de uma repetição ou multiplicação do
sacrifício do Calvário, pois Jesus se imolou uma vez por todas (Hb 4,14; 7,27;
9,12.25s. 28; 10,12.14). A Ceia torna presente através dos tempos o único
sacrifício de Cristo, para que possamos participar dele e sermos salvos. O
corpo e o sangue de Jesus estão presentes na Eucaristia não de qualquer modo,
mas como vítima; pois estão corpo e sangue separados sobre o altar, como no
sacrifício da vítimas do Sinai que selou a Antiga Aliança (Ex 24,6-8). Assim
diziam os santos Padres: S. João Crisóstomo, bispo de Constantinopla (?403):
“Sacrificamos todos os dias fazendo memória da morte de Cristo” (In Hebr 17,3)
Teodoreto de Ciro (?460)
“É manifesto que não oferecemos outros sacrifícios senão
Cristo, mas fazemos aquela única e salutífera comemoração” (In Hebr. 8,4). S. Leão Magno (400-461), Papa e
doutor da Igreja: “Talvez digas: é meu pão de cada dia. Mas este pão é pão
antes das palavras sacramentais; desde que sobrevenha a consagração, a partir
do pão se faz a carne de Cristo. Passemos então provar esta verdade. Como pode
aquilo que é pão ser corpo de Cristo? Com que termos então se faz a consagração
e com as palavras de quem? Do Senhor Jesus. Efetivamente tudo o que foi dito
antes é dito pelo sacerdote… Quando se chega a produzir o venerável sacramento,
o Sacerdote já não usa suas próprias palavras, mas serve-se das palavras de
Cristo. É, pois, a palavra de Cristo que produz este sacramento. Qual é esta
palavra de Cristo? É aquela pela qual todas as coisas foram feitas. O Senhor
deu ordem e se fez o céu. O Senhor deu ordem e se fez a terra. O Senhor deu
ordem e se fez os mares. O Senhor deu ordem e todas as criaturas foram geradas.
Percebes, pois, quanto é eficaz a palavra de Cristo. Se, pois, existe tamanha
força na Palavra do Senhor Jesus, a ponto de começarem as coisas que não
existiam, quanto mais eficaz não deve ser para que continuem a existir as que
eram, e sejam mudadas em outra coisa? Assim, pois, para dar-te uma resposta,
antes da consagração não era o corpo de Cristo, mas após a consagração, posso
afirmar-te que já é o corpo de Cristo. Não é, pois, sem motivo que tu dizes:
Amém, reconhecendo já, em espírito, que recebes o corpo de Cristo. Quando te
apresentas para pedi-lo, o sacerdote te diz: “Corpo de Cristo”. E tu responde:
Amém, quer dizer, É verdade. Aquilo que a língua confesse, conserve-o o afeto.
No entanto, para saberes: é este o sacramento, precedido pela figura.” (Os
Sacramentos e os Mistérios, Lv 4, 4-6, Ed. Vozes, p. 50-55)
Texto: Prof. Felipe Aquino
Fonte: cleofas.com.br
Foto retirada da internet
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